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Pilares de sustentação das redes de empresas


É na Plaza Mayor de alguma cidade da região da Catalunha, na Espanha, que homens e mulheres se reúnem formando as chamadas torres humanas - “Castells” em catalão. Na base da torre, forma-se um círculo grande de pessoas com grande força física que dará estabilidade à estrutura e sobre ele será distribuído o peso das andares seguintes. Esse círculo também tem o papel de amortecer a queda, caso os demais participantes se desequilibrem. Os seguintes andares são construídos sobre esses círculos e constituídos com um número específico de pessoas. As torres, que chegam a 9 andares e, aproximadamente, 15 metros, tornaram-se símbolos de uma cultura catalã e têm surgido em manifestações pró-independência em toda a região. No entanto, a prática é considerada por muitos dos castellers uma maneira de manter a tradição viva.


Muito além de conservar a tradição, percebe-se, ainda, a possibilidade de aprender com algumas virtudes presentes nas torres humanas, como a organização, que dá ordem e estrutura, e a manutenção da confiança. Os participantes sabem cada passo a ser seguido durante todo o processo de formação, sabem o melhor momento para movimentar-se e estão atentos e confiantes na performance dos demais colegas, caso algo saia do esperado.

Assim como as torres humanas, as redes de empresas precisam sustentar-se em pilares fortes e estratégicos que visem a manutenção de práticas associativistas capazes de atingir objetivos coletivos. Com esse propósito, a sustentação de uma rede de negócios baseia-se em duas grandes dimensões, Organizacional e Relacional, e oito pilares que proporcionam o desenvolvimento da rede e de seus participantes.


A dimensão organizacional das redes

Quatro pilares organizacionais ajudam a sustentar as redes de negócios, conforme ilustramos na figura a seguir. O primeiro refere-se à definição da Governança da Rede, de modo que haja processos abertos e inclusivos para os participantes e que esses tenham a oportunidade de participar das decisões. A governança da rede estabelece as “regras do jogo da cooperação”, garantindo, assim, a legalidade dos procedimentos.


O segundo pilar consiste na Gestão da Rede. De forma complementar à governança, a gestão define as estratégias, a estrutura e os processos para a operação da rede. Através das regras estabelecidas pela governança, a gestão encontra métodos para o alcance dos objetivos coletivos. A gestão precisa jogar o jogo da colaboração de acordo com as regras estabelecidas pela governança.

Os serviços oferecidos pelas redes de negócios, por sua vez, caracterizam o terceiro pilar de sustentação. A fim de contribuir para a qualidade, custo e competitividade dos participantes, a rede deve disponibilizar um portfólio de serviços importantes para as empresas, mas que estas seriam incapazes de realizar individualmente. Cabe à gestão da rede não apenas desenvolver o portfólio como também renová-lo quando preciso, tendo em vista as necessidades de seus associados e as possíveis mudanças que podem ocorrer no mercado.


Por fim, o quarto pilar organizacional corresponde à estruturação de canais propícios para a troca de informações. Através do acesso às informações, é possível perceber o que pode ser melhorado, o que está dando certo, o que pode se tornar um problema futuro e o que pode facilitar o dia a dia das empresas pertencentes à rede, promovendo melhorias entre os associados. Portanto, cabe à rede criar e monitorar os canais de comunicação, garantindo com que todos os participantes tenham acesso a essas informações.


A dimensão Relacional

Por melhor que uma equipe se organize para fazer uma torre humana, o resultado não será alcançado sem que haja um profundo espírito de comprometimento e cooperação entre os participantes. Manter os relacionamentos fortes e consolidados torna-se imprescindível para o alcance dos resultados esperados. Tal como a dimensão organizacional, a dimensão relacional baseia-se em 4 pilares essenciais, apresentados na figura a seguir.

O primeiro pilar consiste na confiança entre os participantes. A construção de uma relação de confiança onde os participantes podem esperar idoneidade, reciprocidade e competência um dos outros se dá através de contatos e relações entre os empresários. Cabe à rede de negócios reforçar o contato entre os associados de modo que esses se conheçam e possam confiar na competência e idoneidade uns dos outros.


Do mesmo modo, o segundo pilar baseia-se na confiança nos gestores da rede. Conforme uma rede cresce em tamanho, surge a necessidade de competências específicas para atingir objetivos. Assim, uma estrutura de gestão profissional, com gestores contratados, torna-se cada vez mais essencial. Os participantes da rede precisam confiar em seus gestores para que lhes seja atribuída a autonomia necessária para desenvolver as atividades da rede.


Quanto ao terceiro pilar, o comprometimento dos participantes com a rede é fundamental para o sucesso da cooperação. Os associados devem estar comprometidos com os processos de definição de estratégias e com a sua execução. Percebe-se que esse pilar está diretamente ligado com os anteriores: o comprometimento dos participantes vai depender tanto da sua confiança nos gestores, quanto na confiança nos demais participantes, uma vez que esses devem respeitar os interesses e decisões coletivas, mesmo quando não concordam integralmente sobre essas.


Por fim, a liderança caracteriza o quarto pilar da dimensão relacional das redes. É através da liderança que ocorre a mobilização e direcionamento dos participantes à colaboração. Além do mais, a liderança é encarregada de assumir o papel de facilitadora e mediadora dos processos decisórios, de modo a buscar o consenso sempre que possível.


Dada a complexidade das redes, que são compostas por empresas legalmente independentes, mas que cooperam para alcançar objetivos em comum, todos os oito pilares precisam ser cuidadosamente considerados. Redes que monitoram os pilares organizacionais e relacionais têm maiores chances de operar eficientemente e atender aos interesses dos seus participantes. E a sua rede, como está em relação aos pilares organizacionais e relacionais?


Esses e outros conceitos estão disponíveis no livro Redes, Alianças e Parcerias: ferramentas e práticas para a gestão da cooperação empresarial”, escrito pelo Professor Doutor Douglas Wegner.



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